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“A inspeção pré-nupcial”

“A inspeção pré-nupcial”

“A inspeção pré-nupcial” (1743) (William Hogart, 1697-1764)

Citação em destaque

Durante séculos, a dimensão social da atividade clínica, fora da esfera estrita da saúde pública, detinha-se em aspetos muito caricaturais que remetiam para tradições da sociedade de então, que hoje parecem risíveis e ridículas, para a grande maioria dos cidadãos e dos profissionais. A que se refere neste quadro, da autoria de um grande artista britânico (pintor, caricaturista, cartoonista e crítico social) alude a uma realidade que faz parte da história dos costumes de muitas épocas e que vigorou até data recente, pelo menos no seio de alguns países com regimes monárquicos mais conservadores. Nele se faz a caricatura de certos rituais muito arreigados à tradição então vigente, ou seja, a inspeção pré-nupcial. Esta visava, essencialmente, dois aspetos: atestar a ausência de doenças venéreas patentes e garantir a virgindade. Logicamente, atendendo aos valores morais então prevalecentes, tal aplicava-se essencialmente aos elementos do sexo feminino, porque a principal preocupação era garantir que o esposo poderia ter filhos saudáveis e não ver manchada a sua reputação social e moral, pelo “simples” facto de ter sido, alguma vez, até essa altura, “atraiçoado” na sua honra pela sua futura mulher e mãe dos filhos de ambos que haveriam de vir a nascer depois de consumado o matrimónio. Algo repugnante, à luz da ética atual.

Mas, obviamente, que existem outras formas de exercer esta vertente de maneira muito útil e dignificante. Basta pensar no relacionamento que se exige, muito para além do adequado tratamento do doente individualizado, em tudo o que se refere ao apoio social aos mais desfavorecidos do ponto de vista económico, ao apoio ao doente geriátrico, muitas vezes sozinho neste mundo e em vias de perder a autonomia para ser capaz de se auto-cuidar, aos menores vítimas de carências graves de diversa ordem, incluindo afetivas, às mulheres e aos deficientes sujeitos a maus tratos e a torpe violência (física e psicológica), ou aos membros das comunidades de imigrantes, nas quais, muitas vezes, tudo isto se conjuga, para além das profundas diferenças linguísticas, religiosas, ou de costumes, que se torna imperioso entender, para se poder ajudar com dignidade e eficácia.

 

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